Fotografia online: uma heterotopia visual

Fotografia on-line:

Uma heterotopia visual

Rafael Frota

Michel Foucault define heterotopias como contraespaços, sejam eles reais ou virtuais, que não apenas se opõem aos espaços ordinários, mas que também visam neutralizá-los ou purificá-los. Durante a pandemia de COVID-19, a fotografia realizada à distância, por meio da internet, consolidou-se como uma dessas heterotopias, oferecendo um modo de resistência à imposição de distanciamento social. Nesta pesquisa, adota-se o termo fotografia on-line para se referir a essa modalidade insurgente.

Embora a fotografia remota não seja nenhuma novidade, foi no contexto pandêmico que ela encontrou sua legitimação. Diversos fotógrafos, profissionais e amadores, lançaram-se nesse processo inusitado, que chegou a ser considerado “um dos futuros da fotografia”. Impulsionado pela mediação tecnológica e pela reorganização forçada das relações sociais, o método reposicionou o gesto fotográfico, suspendendo parâmetros tradicionais de presença, de autoria e de controle da imagem. Não obstante sua legitimação, com o fim do lockdown observou-se um arrefecimento significativo da prática, e as motivações não foram devidamente esclarecidas.

Mesmo com a baixa adesão atual, a fotografia on-line deixa como legado aos estudos da imagem um conjunto de problemáticas relevantes e ainda pouco exploradas. É a partir delas que se estruturam as proposições que orientam este projeto de pesquisa, o qual busca reconhecer o processo não como mera variação técnica ou um expediente circunstancial da fotografia, mas como uma heterotopia visual. Ao operar como um espaço de resistência, a fotografia on-line desafia regimes hegemônicos de visualidade, tensiona paradigmas consolidados e exige, tanto do fotógrafo quanto do observador, um repertório estético-visual ampliado.