Michel Foucault (2013) define heterotopias como contraespaços, sejam eles reais ou virtuais, que não apenas se opõem aos espaços ordinários, mas que também visam neutralizá-los ou purificá-los. Durante o período de distanciamento social imposto pela pandemia de COVID-19, a fotografia realizada a distância, por meio da internet, consolidou-se como uma dessas heterotopias, viabilizando a criação fotográfica mesmo sob as restrições rigorosas do isolamento. Nesta pesquisa, adota-se o termo fotografia on-line[1] para se referir a essa modalidade de produção fotográfica.
Embora a fotografia remota não seja necessariamente uma prática emergente, foi no contexto do isolamento social que ela encontrou sua legitimação. Diversos fotógrafos ao redor do mundo lançaram-se em um processo inusitado, que chegou a ser considerado “um dos futuros da fotografia” (Ewing, 2023). Impulsionada pela mediação tecnológica e pela reorganização forçada das relações sociais, essa modalidade reposicionou o gesto fotográfico, colocando em suspensão parâmetros tradicionais de presença, autoria e controle da imagem.
Além dos deslocamentos de ordem social, o período pandêmico provocou também uma abalo no campo profissional da fotografia, marcado pelo cancelamento massivo de trabalhos presenciais, retração do mercado e perda significativa de renda entre fotógrafos freelancers. Nesse cenário, a fotografia on-line emergiu não apenas como alternativa criativa, mas como estratégia de sobrevivência econômica, reposicionando o gesto fotográfico em um regime de precariedade técnica e laboral. Contudo, com o fim do período pandêmico, observou-se um arrefecimento significativo de sua prática e de sua circulação. Essa condição excepcional favoreceu uma rápida disseminação da prática, acompanhada de uma aceitação momentânea de suas limitações técnicas e operacionais. Contudo, com o fim do período pandêmico, observou-se um arrefecimento significativo de sua prática e de sua circulação.
Apesar da baixa adesão atual, a fotografia on-line deixa como legado aos estudos da imagem um conjunto de problemáticas relevantes e ainda insuficientemente investigadas. É a partir delas que se estruturam suas proposições interpretativas que orientam este projeto, estabelecendo o processo não como uma simples variação técnica ou um expediente circunstancial da fotografia, mas como uma legítima heterotopia visual. Ao operar como um espaço de resistência, um contraespaço mediado pela internet e cercado por limitações estruturais, a fotografia on-line não só desafia os regimes hegemônicos de visualidade, mas também tensiona paradigmas consolidados dos estudos da imagem, exigindo do fotógrafo e do observador uma ampliação da educação estético-visual.
[1] Ainda não existe nomenclatura estabilizada para essa modalidade fotográfica, que aparece também sob designações como fotografia virtual, fotografia remota ou ensaio virtual. Opta-se aqui pelo termo fotografia on-line por evitar ambiguidades com outros processos homônimos.